“Cancro. Secadores de unhas de luz ultravioleta danificam ADN e provocam mutações”

Notícia no Público e vários órgãos de comunicação social. A opinião de uma profissional há mais de 17 anos na indústria de unhas com Master em Dermofarmácia e Cosmética.

Após o novo burburinho acerca “dos secadores de unhas”, que honestamente faz a minha a minha imaginação criar logo uma imagem de um secador apontado para uma unha com gel a escorrer por aí abaixo, não posso deixar de me pronunciar acerca do assunto.

 

Alegações nas notícias:

 

Link notícia exemplo: https://www.publico.pt/2023/01/18/impar/noticia/cancro-secadores-unhas-luz-ultravioleta-danificam-adn-provocam-mutacoes-2035592?utm_campaign=later-linkinbio-publico.pt&utm_content=later-32437192&utm_medium=social&utm_source=linkin.bio

 

  • Dispositivos lâmpadas UV: 340 A 395NM comprimento de onda para secar unhas.

  • Utilização dos secadores emissores de UV leva a “20% a 30% de morte celular numa sessão de 20 minutos ”e “três exposições consecutivas de 20 minutos causaram a morte de entre 65% a 70% das células expostas”. 

  • “Estes aparelhos são comercializados como seguros (…). Mas até agora, do que sabemos, ninguém os estudou ou ao modo como afetam as células humanas a nível molecular e celular”.

  • O estudo permitiu ainda observar que a exposição à luz ultravioleta causou igualmente danos nas mitocôndrias (parte da célula importante para a sua respiração e nas trocas de energia) e no ADN das células e “provocou mutações com padrões que podem ser vistos no cancro da pele.

  • compararam o risco dos secadores com o das máquinas de bronzeamento que emitem radiações ultravioletas e cuja utilização, foi demonstrado cientificamente, é cancerígena.

  • Os investigadores advertem, no entanto, que apesar de os resultados mostrarem os efeitos nocivos da utilização repetida dos aparelhos nas células humanas, seria necessário um estudo epidemiológico de longo prazo para se poder eventualmente concluir que tal aumenta o risco de cancro da pele.

  • Maria Zhivagui, outra das autoras do estudo e fã daquele tipo de manicura, disse que não vai esperar. Face aos resultados da investigação, que considerou alarmantes, decidiu deixar de utilizar a técnica nas suas unhas.

 
 
 

Em primeiro lugar: não existem “secadores de unhas” (ou talvez sim, umas ventoinhas que me lembro de em miúda utilizar, que diziam secar o verniz tradicional mais depressa, mas mal largava o aparelho, ficava com um puff de pêlos agarrado às pontas dos dedos…quem não?!). Voltando ao assunto… Lâmpadas UVs não secam unhas, polimerizam o gel ou na gíria das profissionais “catalisam” o gel.

 

Em segundo lugar: Sessões de exposição de 20minutos realizadas no estudo não correspondem à realidade das exposições da pele numa sessão de embelezamento de unhas artificiais, muito menos 3 sessões de 20 minutos num intervalo de 2 horas num mesmo dia tal como referido na amostra sujeita ao teste Agudo, ou sessões de 20 minutos em 3 dias consecutivos, na amostra sujeita ao teste Crónico. O próprio estudo refere que o tempo normal de exposição é de 10 minutos (pagina 2 do estudo para quem quiser confirmar a afirmação)

 

Em terceiro lugar: a exposição excessiva das amostras aos raios UV dos ditos “secadores de unhas” (esses monstros que invadiram o nosso planeta no dia de hoje), demonstrou pelo estudo ser citotóxica, genotóxica e mutagênica por períodos “curtos” de 20 minutos (quem é que fica 20 minutos com 2 mãos dentro de um aparelho destes senhores?!?). Para alegar que estes efeitos são assim tão nocivos para a pele humana, todos os seres humanos deveriam então a meu ver evitar sair de casa durante os períodos de dia em que a exposição solar é bem maior, mais alargada e em tempos e climas convidativos à praia, esta atividade deveria mesmo ser interdita. Como sabemos o cancro de pele é um dos mais conhecidos pela elevada exposição da pele aos raios solares nas praias, todos nós sabemos os efeitos nocivos causados pelos mesmos e ainda assim a população tem poder de decisão a que riscos se deve expor, quer sejam eles nas praias, nas câmaras de solário ou até mesmo pelos “secadores de unhas”.

 

Em quarto lugar: o próprio estudo alega no final (página 9), que os estudos relatados são baseados “em modelos de linhas celulares in vitro que, como todos os sistemas modelo, não emularão perfeitamente a mutagênese específica do local em seres humanos”. Em português simples: Os estudos não conseguem reproduzir os efeitos reais na mão humana por serem feitos em amostras de pele que lógicamente estão a ser mantidas “vivas” para um teste de forma artificial e separadas de todos os sistemas naturais que as alimentam e cuidam na sua manutenção e/ou reparação. Este facto, comporta 3 limitações muito importantes de sistemas experimentais que transcrevo:

  1. “Primeiro, todas as linhagens de células não terão a camada cornificada da epiderme da pele, o que pode afetar a mutagênese real devido à radiação UVA.
  2. Em segundo lugar, os sistemas in vitro podem acumular mutações de fundo não fisiológicas que serão diferentes das mutações de fundo encontradas na pele humana normal.
  3. Em terceiro lugar, o acúmulo de mutações em linhagens celulares não fornece informações diretas sobre a carcinogênese da pele em populações humanas.

Em português agora: Apesar de existirem evidências de danos causados (que não podemos dizer que não possam existir, tal como existem em circunstâncias já referidas de exposição ao sol na praia, na varanda, na rua, nas camaras de solário), toda a experiência não é feita em seres humanos e todos cenários são artificiais, logo não é possível aferir que nada do que se provou tenha a gravidade demonstrada no estudo. Reforço, não defendo que não existam danos em humanos, só não podem ser quantitificados desta forma nem por este estudo.”

 

Em quinto lugar: o estudo volta a alegar (página 9) que não existe uma evidência de causar cancro em seres humanos. Por outros estudos relacionados com camaras de solário que provaram o aumento de incidência de cancro nos seus utilizadores e evidências alheias ao estudo, este sugere fortemente que possa causar cancro, mas não o pode comprovar de forma específica como a comunicação social não refere (pois não o pode referir) mas quer deixar subentendido que assim o é. O estudo ainda refere que um estudo desta magnitude e detalhe poderá ainda levar pelo menos uma década a ser concluído e depois publicado.

 

Em sexto e último lugar: foi referido que estes equipamentos são vendidos como seguros e não existem estudos sobre os seus efeitos na pele e isto não corresponde à realidade. Disppnibilizo o link do mesmo feito em 2013. Vários estudos já foram feitos adicionalmente, apenas partilho este por ser um dos referidos pelo guru da química das unhas o Dr. Dough Schoon:

 

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/php.12075/abstract Dowdy, J. C. and Sayre, R. M. (2013), Photobiological Safety Evaluation of UV Nail Lamps. Photochemistry and Photobiology, 89: 961–967. doi: 10.1111/php.12075

 

Neste estudo a conclusão retirada é que nestes equipamentos de unhas:

  • as lâmpadas de unhas UV são seguras quando usadas em salões de manicure
  • as lâmpadas de unhas UV eram ainda mais seguras do que eles esperavam
  • menos perigosas do que poderia ter sido previsto com base nas preocupações iniciais levantadas

Neste estudo é ainda testado e provado que as costas da mão são 4 vezes mais resistentes aos raios UV do que a testa ou bochechas. São 3 vezes e 1/2 mais resistentes do que as costas de uma pessoa, tornando a parte de trás da mão a parte do corpo mais resistente aos raios ultravioleta. As costas da mão são o local mais adaptado aos raios UV e foto radiações, e o local do corpo mais resistente a raios UV.

Este estudo clarifica que as Lâmpadas UV para unhas não são o mesmo que lâmpadas para bronzear. São bem menos prejudiciais. A exposição a raios UV nas máquinas para unhas é muito baixa. Uma pessoa poderia colocar a mão sob uma lâmpada ultravioleta por 25 minutos por dia e isso ainda estaria dentro dos “limites de exposição ocupacional diária permissível” para os trabalhadores, de acordo com os padrão internacional aplicável (ANSI RP-27).  A exposição da cliente do salão é muito, muito menor e apenas uma pequena fração em comparação, também deve ser considerado também que a exposição do cliente é apenas uma a duas vezes por mês.

Ainda, os riscos para o desenvolvimento de cancro de pele não melanoma são muito baixos quando comparados à luz solar normal do meio-dia. Dos tipos de UV que podem causar cancro de pele não melanoma, este estudo descobriu que as lâmpadas de unha UV expõem a pele a 11-46 vezes menos do que a exposição relacionada ao cancro não melanoma esperada de passar o mesmo tempo na luz solar natural do meio-dia. É altamente improvável que até mesmo a cliente de salão de beleza mais frequente ou utilizadora doméstica destes aparelhos se aproximem deste nível de exposição.

No entanto existem sim casos em que algumas preocupações e cuidados devem ser tomados tais como: clientes que possam estar a tomar medicação que aumenta a sensibilidade aos raios UV. Esses indivíduos são aconselhados pelo seu médico a não se aventurar na luz solar natural sem proteção adequada e devem ser cautelosos ao usar lâmpadas de unhas UV.

Em suma, mais uma vez um estudo é lançado pela comunicação social de forma deturpada pela escolha cuidadosa de frases soltas encontradas ao longo do documento levando a querer que estes “secadores de unhas” são os novos percussores de cancro de pele ou mutações da mesma. Quem lê as palavras seguidas numa frase num título de noticia: Cancro, ADN e Mutações e de seguida junta as palavras no meio, “secadores de unhas”, para compreender o susto pelas anteriores numa frase com sentido, fica a pensar de imediato: Máquinas de unhas de gel levam a cancro, não posso fazer mais! Certo? Pois é… Os títulos das notícias são as máquinas de vendas das mesmas, é pena só não pensarem que isto pode afetar milhares de profissionais no mundo que já vêm a enfrentar tantos desafios como profissionais, mulheres, mães, esposas, viúvas, sozinhas e vencedoras de pós pandemia… Estas mulheres têm enfrentado grandes batalhas numa profissão que lhes destrói os pulsos, a coluna, a cervical e olhos por um trabalho de uns meros, muitas vezes 8€, por umas unhas em que além de 45minutos a 2 horas de trabalho, pagam renda ou comissões, pagam impostos, e pagam ainda…ah!! Material!!! E ainda precisam de formações?!? Sim.. Umas simples unhas de verniz de gel ou gel precisam disto tudo e tem sido infelizmente uma profissão cada vez mais desmerecedora para estas mulheres que estão por trás do nome de técnicas de unhas ou de simplesmente “manicures”… Podia seguir um rol de assuntos acerca destas mulheres mas apenas lamento o efeito que esta notícia terá nas carteiras já “abastadíssimas” das mesmas que depois disto tudo ainda “se fartam de ganhar dinheiro” (sabe-se lá a origem da contabilidade desta profissão). Poderia ter usado uma linguagem mais profissional neste comentário, mas o assunto é tão ridículo e com possíveis efeitos nefastos nas mulheres desta profissão, que não consigo deixar de escrever sem filtro nos pensamentos que me vêm à cabeça neste momento e no pânico gerado no mercado visível pelo número de profissionais que nos contactaram hoje para darmos o nosso parecer como marca. Aqui fica o parecer da marca Cahê Pro, representada por mim Carmen Veríssimo.

 

Conselho às clientes que ainda possam ficar assustadas: Se ficarem mais tranquilas, coloquem protetor solar na pele pois os raios UV a que se expõe durante uma sessão são bem menores que os raios a se expõem na rua ou na praia, por isso um protetor solar será o bastante para obter uma proteção adicional na sua pele.

 

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